Um degrau de cada vez:
como as cooperativas abrem caminho para casas acessíveis
Ter casa própria foi um sonho que esteve fora do alcance de Cátia Miquelino durante grande parte da vida. Com o salário de assistente técnica na Biblioteca Municipal de Grândola parecia-lhe difícil - senão mesmo impossível - comprar uma habitação a preços de mercado. Em 2017, uma amiga aconselhou-a a inscrever-se num projeto promovido a cooperativa de habitação ativa no concelho, a HabiGrândola. Três anos depois, conseguiu um T2 por 80.500 euros. Tinha então 40 anos.
A este preço seria altamente improvável, tanto em 2020 como agora, em 2025, encontrar um apartamento de construção nova no município. É aqui que entram as cooperativas de habitação de propriedade individual, como a HabiGrândola, que representam uma alternativa para quem deseja comprar casa mas não tem possibilidades financeiras de o fazer através do mercado tradicional. Os preços são mais baixos porque a construção ocorre em regime de custos controlados - ou seja, os fogos são vendidos pelo valor que custou construí-los, sem margem especulativa.
Em 10 de novembro de 2025, estavam registadas 192 cooperativas cujo ramo principal é habitação e construção em Portugal Continental. Havia ainda outras 21 cooperativas em que este ramo figurava como atividade secundária.
Fonte: CASES
“SE NÃO FOSSE A COOPERATIVA NUNCA CONSEGUIRIA COMPRAR CASA”
Cátia foge ao perfil de pessoas que recorrem a este tipo de iniciativas: jovens em início de atividade. No entanto, ao longo dos 27 anos de trabalho na biblioteca, o seu ordenado nunca se distanciou muito do salário mínimo. Quando era jovem chegou a ver várias casas, mas rapidamente percebeu que a sua convicção inicial estava correta: a incompatibilidade entre os rendimentos que auferia e os preços do mercado imobiliário era uma triste evidência.
“Tentei comprar, mas não consegui. Ainda andei a visitar casas e fui aos bancos para pedir empréstimos, mas depois conformei-me. Não era possível. Não conseguiria suportar uma prestação e todas as outras despesas com o meu ordenado”, recorda.
Continuar a viver na casa do pai - onde cuidava do irmão, que nasceu com paralisia cerebral - tornou-se numa inevitabilidade. Armando é oito anos mais novo e, desde sempre, foi a sua “pessoa favorita”. A sua condição fez com que Cátia se candidatasse a um curso de fisioterapia em Lisboa, após terminar o ensino secundário. Mas se os bancos lhe fecharam os cofres, a academia bloqueou-lhe a porta - e foi logo depois que começou a trabalhar na biblioteca.
Depois de anos convencida de que nunca conseguiria ter casa própria, Cátia voltou a tentar. Conhecia a HabiGrândola e, em 2017, quando soube que a cooperativa iria construir um empreendimento com 16 fogos no Bairro de S. João - a poucos minutos da biblioteca - deu o primeiro passo.
“Pensei: vou inscrever-me e ver no que dá. E assim foi, lá consegui o meu querido apartamento. Na altura, recebia cerca de 900 euros por mês e pedi um empréstimo pelo máximo de tempo possível, de forma que, se tudo correr como planeado, terei 80 anos quando terminar de pagar a casa. Se não fosse a cooperativa, nunca conseguiria”, conta.
Já passaram mais de cinco anos desde que Cátia comprou o seu T2. Entretanto, começou a fazer mais horas extra no trabalho para não ficar com uma taxa de esforço muito grande. Nos seus planos está a adaptação da casa às necessidades do irmão
Em Grândola 42% das casas são de residência secundária
O último empreendimento construído pela HabiGrândola fica no Carvalhal, a freguesia que, de acordo com a Carta Municipal de Habitação de Grândola, mais atraiu novos residentes para o concelho e onde se concentra a maoria do alojamento local do município (58%) e das casas de residência secundária.
Foi a primeira vez na história da cooperativa que se construiu no Carvalhal. Foram entregues 24 apartamentos - oito T2 e 16 T3, que custaram entre 137.000 e 145.000 euros (T2) e entre 162.500 a 172.500 euros (T3). Estes valores contrastam com os da zona, onde se multiplicam as moradias de luxo, com preços acima de um milhão de euros.
Gráfico com a evolução do preço do metro quadrado no Carvalhal.
Fonte: Portal Idealista
Esta diferença é um reflexo da evolução da economia do concelho de Grândola, que passou de uma base agrícola, pecuária e industrial para um modelo centrado no turismo e no imobiliário. Segundo a Carta Municipal de Habitação de Grândola, em 2021, o setor do alojamento, restauração e similares era responsável pela maior parte do emprego no município e cerca de 42% dos alojamentos eram de residência secundária.
Habigrândola: a construir há mais de 30 anos
Entre os que testemunharam de perto a transformação do concelho está José Manuel Pereira, presidente da HabiGrândola. Aos 67 anos, reformado há cinco, dedica-se inteiramente à cooperativa, depois de uma vida profissional ligada ao comércio. “Estou no meu terceiro mandato, assumi a presidência há 12 anos, quando ainda trabalhava. Mas faço parte da cooperativa desde o tempo em que ainda nem sequer era uma cooperativa, mas sim uma associação de moradores”, diz.
A Associação Moradores Paz e Progresso foi criada em 1977 para dar resposta às dificuldades no acesso à habitação que “já vêm de há muito e que agora se agravaram”.
Em 1983, estava concluído o primeiro projeto: a promoção de um novo bairro SAAL - Serviço de Apoio Ambulatório Local - no Vale Pereiro I e II, do qual resultaram 83 novos fogos. Pouco tempo depois, em 1986, José Manuel integrou a direção como 1° vogal.
Oito anos mais tarde, em 1994, a associação converteu-se em cooperativa, dando origem à HabiGrândola. No total, entre 1983 e 2024, foram construídos 244 fogos.
José Manuel considera que a resposta dada pela HabiGrândola é significativa, tendo em conta as particularidades do concelho de Grândola. “Pode parecer pouco quando anunciamos a construção de 20 ou 30 fogos, mas isso já faz a diferença e resolve a situação a várias pessoas. Construímos 56 habitações nos últimos seis anos, mais do que a Câmara”, afirma.
Desde 2000, a maior parte das habitações construídas no concelho é de iniciativa privada, representando 93% do total. A promoção pública mantém uma presença muito residual, correspondendo a apenas 1% da produção habitacional, enquanto o papel das cooperativas de habitação é mais relevante, representando cerca de 6% do total.
Fonte: Carta Municipal de Habitação de Grândola
Novo presidente quer construir mais 300 casas
Em declarações ao Polígrafo, Luís Vital Alexandre, o novo presidente da Câmara Municipal de Grândola eleito pelo PS, considera que, no último mandato, sob gestão da CDU, “não houve metas nenhumas em relação à habitação”. Prova disso, sustenta, é o facto de a Câmara não ter concluído a construção de nenhuma casa municipal nos últimos quatro anos.
“Começaram a construção de seis fogos em Azinheira de Barros, mas só deverão estar concluídos em junho de 2026. Foi ainda estudada a construção de quatro fogos na vila, mas não se pôde avançar por questões técnicas”, explica.
Uma das metas de Luís Vital Alexandre é a construção de 300 casas a custos controlados, um objetivo que considera “ambicioso, mas fazível”, dadas as capacidades do concelho e os apoios disponíveis. O autarca assegura que procurará entendimento com os investidores locais e com a cooperativa para a concretização deste objetivo.
Catarina, um caso particular na capital
Em Lisboa, a mais de 120 quilómetros de Grândola, os problemas no acesso à habitação ganham outra escala. Há mais cooperativas ativas e o rendimento médio é superior, mas a densidade populacional é também substancialmente maior. De acordo com um relatório da Comissão Europeia, é a cidade da UE onde os habitantes destinam a maior percentagem de salário médio (116%) para pagar a habitação.
Lisboa vs Grândola - características
Fonte: Retrato do Município da PORDATA. Números de 2024
No Braço de Prata, mesmo junto à linha do comboio, numa área de 9.288 metros quadrados, está a ser concluída a construção de um empreendimento com 63 apartamentos. Este projeto, agora na fase final, contou com a colaboração de seis cooperativas e marca o fechar da malha urbana no Vale Formoso, área onde, ao longo das últimas duas décadas, foram construídos mais de 700 fogos de cooperativas da habitação.
“Agarrei uma oportunidade que muitos gostariam de ter”
As habitações deste empreendimento estão atribuídas há longos anos: as pessoas aguardam há cerca de uma década pelas casas. Uma das futuras moradoras é Catarina Subtil, 34 anos, arquiteta e gestora de projetos imobiliários.
A avó de Catarina vive no Parque das Nações numa casa comprada através de uma cooperativa há mais de 30 anos. Em 2016, o pai inscreveu-se na esperança de garantir casa para os filhos. O tempo passou, o irmão comprou a própria habitação e o apartamento (T2) acabou por ficar para Catarina.
Catarina vive em casas partilhadas desde os 18 anos, quando foi estudar para Coimbra. Depois de se formar, aos 23, regressou a Lisboa, mas voltar para a casa de família não era uma opção. Face aos preços das rendas, continuou a partilhar casa e foi poupando dinheiro. Ainda chegou a fazer uma “pesquisa leve” por casas à venda em Lisboa, mas com os valores que encontrou percebeu que devia esperar pelo apartamento da cooperativa.
“Em termos profissionais não tinha estabilidade suficiente para me atirar para um investimento e, por isso, aguardei. Como as casas de cooperativas são muito mais acessíveis, percebi que valia a pena esperar e agarrar a oportunidade, que acho que muita gente gostaria de ter”, conta.
Há cerca de três anos, o salário de Catarina aumentou e fixou-se em números superiores aos da média nacional. A arquiteta admite que talvez pudesse comprar uma casa no mercado tradicional, mas “não algo novo e em tão boas condições como as desta urbanização”. Não chegou a necessitar de pedir um empréstimo ao banco. Agora, aguarda pela escritura, que está prevista para janeiro de 2026.
Neste empreendimento, os apartamentos T2 (100-109 m2) custarão entre 200.000 e 215.000 euros, os T3 (137-142 m2) entre 260.000 e 290.000 euros e os T5 (160m2) rondarão os 330.000 euros.
“Agora digam-me: onde é que encontram apartamentos novos e com esta qualidade a estes preços em Lisboa?”, nota Álvaro Silva, presidente da Habipenha, uma das cooperativas envolvidas neste projeto.
Álvaro Silva, de 56 anos, é arquiteto e já participou em projetos de construção um pouco por todo o país, pelo que fala com “algum conhecimento de causa”. Entrou no movimento cooperativo na década de 1990 por influência de um familiar ligado a uma paróquia, onde existia um problema de acesso à habitação para pessoas com mais dificuldades financeiras. “Ver isso motivou-me”, recorda.
O arquiteto tem razão: os preços das casas deste empreendimento são bastante inferiores aos atualmente praticados. O metro quadrado destes apartamentos situa-se entre os 1.831 e os 2.150 euros, muito abaixo do valor mediano de Lisboa, que, segundo o INE, atingiu 4.394 euros/m² na avaliação bancária e 4.865 euros/m² nas vendas no segundo trimestre deste ano - mais de duas vezes a média nacional de 2.065 euros/m².
A compra de uma casa através de uma cooperativa de habitação tem que ser para habitação própria e permanente. Por norma, não é estabelecido um limite de rendimentos para a inscrição. No entanto, não se pode ter outra casa no ato da escritura.
Preço do m²
2º Trimestre 2025
Lisboa
↑4.865€
Fonte: INE
2º Trimestre 2025
Média Nacional
↑2.065€
Fonte: INE
2º Trimestre 2024
Lisboa
4.367€
Fonte: INE
2º Trimestre 2024
Média Nacional
1.736€
Fonte: INE
Em Marvila, onde se situa a urbanização do Vale Formoso, o preço mediano do metro quadrado registado foi de 5.025 euros. Embora acima da média de Lisboa, esta foi a freguesia da capital onde se verificou a queda mais acentuada, com uma descida de 16,9% em comparação com o mesmo trimestre do ano anterior.
Contas feitas, os apartamentos serão vendidos por menos da metade do valor praticado no mercado tradicional. Esta diferença atrai atenção, mesmo daqueles que não sabem como o processo funciona.
“Quando começámos a construção, muitas pessoas que passavam por aqui ficavam interessadas em comprar casa e iam até à cooperativa dizer que gostariam de se inscrever. Depois desconfiavam e perguntavam: ‘Mas como é que pode estar tudo vendido se só começaram agora a construir?' Na realidade, não estava vendido, mas sim atribuído’”, conta ao Polígrafo Jorge Guilherme, o vice-presidente da Federação Nacional de Cooperativas de Habitação Económica (FENACHE).
Este tipo de dúvidas não é estranho para Jorge Guilherme. Está no movimento cooperativo há mais de 20 anos, acompanhou um número significativo de projetos de construção e considera que existe uma certa falta de conhecimento sobre o processo. Entrou na FENACHE, em 2001, aos 26 anos, depois de uma carreira ligada à gestão e à conceção e gestão de projetos imobiliários.
Ao construírem em regime de custos controlados, as cooperativas apresentam-se como uma solução alternativa que tenta contrariar o fenómeno da especulação imobiliária. Mas, como sublinha Jorge Guilherme, só funcionam quando se conjugam três fatores: necessidade, terrenos e financiamento.
Para o responsável, a necessidade nunca esteve em causa, porque houve - e sempre haverá - procura fora do mercado tradicional, devido às dificuldades que existem. Atualmente, só em Grândola, estima-se que cerca de 300 pessoas estejam em lista de espera.
“Não me recordo de algum empreendimento que tenhamos começado sem ter já a lista de cooperadores preenchida. Pode haver desistências pelo caminho, mas com a elevada procura, antes de lançarmos a primeira pedra temos sempre todos os fogos já atribuídos”.
Apesar de continuar a haver interesse neste tipo de projetos, as cooperativas de habitação registaram uma quebra na construção a partir de 2010, de acordo com a FENACHE.
As causas desta diminuição são diversas, mas a maioria está relacionada com dificuldades de financiamento e acesso a terrenos. Mesmo quando estes obstáculos são ultrapassados, os projetos enfrentam frequentemente burocracia e atrasos prolongados. Em alguns casos, surgem entraves inesperados - como aconteceu na urbanização do Vale Formoso, onde palmeiras na área de construção atrasaram a obra em cerca de dois anos.
“Acabou por se tornar numa terra de ninguém. Ao fim ao cabo, as pessoas não se iam organizar para algo que não existia. As cooperativas acabaram por se atualizar e desenvolver outras atividades. Quando chegou a fase em que não podiam construir, tiveram de se dedicar a outras áreas, como apoio à velhice, infância, ou prestação de serviços (ligada aos empreendimentos que tinham construído)”, explica.
Não há mais espaço para construir?
Comparação - área, terrenos e solo expectante para construção.
Fontes: Carta Municipal de Habitação e Retrato do Munícipio na Pordata
Uma das queixas mais frequentes das cooperativas diz respeito à falta de terrenos para poderem construir, o que pode levar ao pressuposto de que não há espaço disponível, mas esse problema está longe de ser uma realidade nestes municípios.
A Carta Municipal de Habitação de Lisboa estima que o desenvolvimento das áreas ainda disponíveis na cidade poderá permitir um acréscimo de cerca de 38.000 fogos, entre produção pública e privada. O documento estabelece ainda a meta de 9.000 habitações até 2032, a concretizar pela Câmara Municipal de Lisboa através de construção nova, reabilitação ou parcerias com promotores privados, bem como a criação de 500 casas em regime de construção cooperativa, integradas em projetos de pequena escala.
No âmbito da cedência de terrenos, a autarquia aprovou o programa “Cooperativas 1ª Habitação Lisboa” e foram, entretanto, lançados dois concursos: um para a construção de 18 habitações no Lumiar, já com contrato de cedência de direito de superfície em fase de assinatura, e outro, ainda em curso, para 12 habitações em Benfica. Para a FENACHE, o número reduzido de fogos torna os projetos cooperativos inviáveis, o que pode explicar a escassez de candidaturas.
Participaram no concurso do Lumiar quatro cooperativas, tendo vencido a HLX Jovens Habitam Lisboa.
Fonte: Câmara Municipal de Lisboa
Em Grândola, de acordo com a Carta Municipal de Habitação, existe potencial para a construção de cerca de 1.400 novos fogos, dos quais 160 de propriedade municipal. A diferença explica-se pelo facto de a maioria dos terrenos pertencentes à Câmara não se situarem em solo urbano. No total, o município detém 1.436 hectares de terrenos, dos quais apenas 6,1% corresponde a solo urbano disponível para construção.
Uma das grandes dificuldades das cooperativas está no acesso aos terrenos municipais. A construção cooperativa depende, por norma, de lotes cedidos pelas autarquias, mas os terrenos “nunca são de borla”, esclarece a FENACHE.
Para avançar com os projetos, as cooperativas têm de cumprir várias condições impostas pelas câmaras, que podem incluir a construção de infraestruturas ou equipamentos públicos. No caso da urbanização do Vale Formoso, por exemplo, serão entregues duas lojas de cerca de 100 m2 cada e uma creche com aproximadamente 600 m2, com capacidade para 42 crianças.
Para a FENACHE, não se deve desvalorizar o potencial da reabilitação, uma vez que esta permite dar uma resposta mais célere do que a construção de raiz. No último mandato da Câmara de Lisboa, a maioria das habitações entregues resultou de reabilitações. Já em Grândola, este tipo de intervenção continua a ter um peso residual.
Cooperativas vão resolver a crise na habitação?
Diariamente, as cooperativas de habitação recebem telefonemas, e-mails e pedidos de quem procura uma alternativa ao mercado imobiliário. No entanto, a FENACHE admite que a resposta que conseguem dar está aquém das necessidades criadas pela crise da habitação. Isto porque nunca foram uma solução para toda a gente.
“As cooperativas destinam-se àquela pessoa que não tem dinheiro para comprar casa no mercado tradicional, mas que também não quer - ou não pode - viver num bairro social, porque os rendimentos que declara são demasiado altos para ter direito a esse tipo de apoio”.
Mas mesmo esse público está a ser afastado. “Hoje em dia, não é qualquer pessoa que consegue dirigir-se a uma cooperativa e comprar uma casa”, reconhece o responsável.
O preço real das casas está a aumentar, acabando por deixar de fora várias pessoas com rendimentos mais baixos.
No Vale Formoso, a cerca de 200 metros do empreendimento atualmente em construção, foi vendido em 2021 um conjunto habitacional com características idênticas - tanto no design como no nível de equipamento - por um valor substancialmente inferior. Enquanto este ano os T2 custaram entre 200.000 e 215.000 euros, há apenas quatro anos um apartamento equivalente custou 125.000 euros.
Em Grândola, verifica-se uma situação semelhante. O projeto do Bairro de S. João foi dividido em duas fases: na primeira, concluída em 2020, os T2 foram vendidos por 80.500 euros e os T3 por valores entre 109.000 e os 110.000 euros. Três anos depois, os preços subiram para 98.000 euros nos T2 e entre 131.000 e 133.000 euros nos T3.
Mas será que impedem mesmo a especulação?
O propósito das cooperativas é poder assegurar o direito à habitação num mercado especulativo. Contudo, há uma questão que se levanta após a venda: o que impede a pessoa que comprou a casa de voltar a colocá-la no mercado a preços inflacionados?
Para o vice-presidente da FENACHE, a lei (decreto-lei n.º502/99, de 19 de novembro) está bem feita, na medida em que prevê que a cooperativa tenha direito de preferência por 30 anos, contados a partir da data da entrega dos fogos. A atualização do preço é determinada por fatores como o estado de conservação, obras de melhoramento e a atualização dos custos de construção.
O problema é a regulamentação de tudo isto, assume Jorge Guilherme: “A partir do momento em que faz a venda a cooperativa pode perder o rasto ao cooperador. É um problema estrutural.”
Esta dificuldade deve-se sobretudo a dois fatores: algumas cooperativas foram criadas apenas para realizar um projeto específico de construção, enquanto outras acabaram por encerrar a sua atividade. Assim, torna-se complicado garantir o cumprimento das regras e o controlo sobre os imóveis vendidos.
Entre 2011 e outubro de 2025, o setor das cooperativas de habitação e construção em Portugal registou, de forma geral, uma evolução negativa no número de cooperativas, refletindo um saldo global negativo entre constituições e extinções.
Fonte: CASES
Evolução dos custos de construção
Fonte: INE
Na perspetiva da FENACHE, este risco pode ser mitigado com uma maior fiscalização estatal. Já para o arquiteto e professor universitário Tiago Mota Saraiva, esta abordagem não é suficiente. O investigador considera que as cooperativas de propriedade individual “devem ser uma exceção e não deveriam receber financiamento público”, devido à probabilidade de as casas entrarem no mercado especulativo.
“De um momento para outro, como o Estado não condiciona nada, as casas passam a estar no mercado livre. Agora começam também a surgir ditas cooperativas, cujos membros não passam de pessoas vindas do setor imobiliário, que procuram usufruir dos benefícios fiscais. É um abastardamento do setor cooperativo. Só em Portugal existe esta promiscuidade entre todas as áreas”, critica.
Para o arquiteto, o futuro do cooperativismo habitacional passa antes pelo modelo de propriedade coletiva, em que o direito de propriedade permanece na cooperativa. É um sistema que, segundo defende, tem maior potencial para travar a especulação imobiliária e garantir habitação acessível a longo prazo.
“Só é utópico por falta de vontade política”
A Rede Co-Habitar, criada há um ano, partilha desta visão. “Para nós, financiar cooperativas em propriedade individual é a mesma coisa que financiar promotores. Criámos a Rede porque consideramos que o modelo coletivo é o único que atualmente previne a especulação. Ao mantermos as habitações em nome da cooperativa, estamos a impedir que se transformem em alojamento local, que sejam praticadas rendas abusivas ou que surjam situações de abandono”, explica Vattani Saray-Delabar, presidente da associação e investigador na área do Urbanismo no ISCTE.
No regime de propriedade coletiva fala-se em atribuição do direito à habitação e no inquilinato cooperativo. Quem adere paga uma contribuição justa para se manter na habitação, como também ajuda a cooperativa a manter e gerir o conjunto de casas para todos os membros. No entanto, existe um grande entrave que tem impedido a execução de projetos de habitação em propriedade coletiva: o financiamento. A Banca continua a preferir a propriedade individual, por considerá-la mais segura em termos de recuperação do investimento.
Nas cooperativas de propriedade individual, as habitações são construídas e posteriormente vendidas aos cooperadores. Nas cooperativas de propriedade coletiva, as habitações mantêm-se da cooperativa, sendo cedidas aos cooperadores através de um direito de habitação ou de inquilinato cooperativo, que lhes garante o uso da casa sem que esta saia do património comum.
Apesar dessas dificuldades, há exemplos na Europa que demonstram a viabilidade do modelo. Tiago Mota Saraiva acredita que este tipo de habitação pode ser seguro “desde que seja cuidadosamente desenhado e planeado”. O arquiteto destaca o caso do empreendimento La Borda, um projeto cooperativo na Catalunha, onde foram construídas 28 habitações (T1, T2 e T3) e cada membro paga, em média, 500 euros por mês - valor que inclui despesas como a amortização e o fundo de reserva.
O fundo de reserva permite colmatar eventuais falhas no pagamento por parte dos cooperadores. Tiago Mota Saraiva destaca a importância de haver regras bem definidas que possam garantir que a cooperativa não entra em incumprimento.
“Não há espaço para informalidade nesta circunstância. Num empreendimento com 28 famílias, haverá sempre, ao longo dos anos, situações em que algum cooperador enfrente dificuldades. É necessário estabelecer um conjunto de regras que evite que a cooperativa fique em incumprimento. No Canadá, os cooperadores que, por alguma razão, não conseguem pagar a prestação recorrem aos serviços sociais, de modo que o Estado cubra o valor em falta. Noutros países, recorre-se a fundos de reserva”, considera.
Na perspetiva da Rede Co-Habitar, este modelo só é viável com um enquadramento jurídico e financeiro sólido e com o apoio efetivo do Estado - condições que, atualmente, estão em falta em Portugal. A associação deixa uma pergunta no ar: “Se funciona noutros países, porque é que aqui não haveria de ser possível? Isto só é utópico por falta de vontade política.”
Seja de propriedade individual ou coletiva, a Cooperativa António Sérgio para a Economia Social (CASES), organização que promove o setor, destaca que os dados mais recentes apontam para uma dinâmica renovada e promissora deste modelo.
“A criação consistente de novas cooperativas entre 2023 e outubro de 2025, sugere um reforço do interesse e da confiança neste modelo, particularmente num contexto de desafios crescentes no acesso à habitação. Estes sinais positivos poderão indicar o início de uma nova fase de afirmação e modernização do setor cooperativo da habitação”, aponta.
